O LADO DA ESPADA
_ De que lado vai a espada?
A. G. fez a pergunta quando ele, eu e T. nos sentamos no tatame, à maneira japonesa (seiza), para um agradecimento recíproco quando terminamos a técnica. Era ele que estava com a espada de madeira naquele momento.
_ Do lado direito, disse T.
Eu disse:
_ Do lado direito você mostra uma disposição amistosa. Do lado esquerdo, mostra ...
_ ... que está pronto! Atalhou A. G.
_ Isso.
_ E o fio?
_ Voltado para fora é como se você quisesse agredir os outros. O mais polido é voltá-lo para o seu próprio corpo.
Logo que as espadas de madeira foram guardadas fiz um comentário como preleção de fim do treino.
_ O Aikido oferece a oportunidade de estudarmos a questão da etiqueta a fundo mas, temos que tomar cuidado para não ficarmos obcecados com o aspecto externo dela, com o aspecto formal apenas. Lembrem que quando A. L. chegou ao treino eu comentei a postura dele na entrada no tatame mas, fiz questão de ressaltar que a atitude era a correta. O sentimento que ele expressava era de cortesia. É interessante saber qual é a forma correta para não gerar mal-entendido sem querer em outro lugar mas, como disse, a idéia não é ficar rígido e obcecado com a forma. Às vezes, você tem até a forma mas, não tem verdadeira etiqueta. Às vezes, você está em uma situação onde nada do aspecto formal está ajustado mas existe verdadeira polidez. Às vezes, é preciso até dar uma “bicuda” nas regras porque alguém pode estar querendo controlá-lo em função delas.
O Samurai sabia disso. É por isso que algumas vezes assumia o oposto do que era esperado dele:
_ Não vou cumprir isso!
_ Então, você vai ter que cortar sua barriga para limpar sua honra!
_ Passa essa faca pra cá! (risos)
Musashi era um que usava muito bem o conhecimento dessas regras. Há um filminho no youtube que mostra o famoso duelo com Sasaki Kojiro. A cena é toda cheia de estilo... duelo ao nascer do sol, na praia, ele chegando num barco, Kojiro encarando-o na chegada... bem viajado. Aliás, eu também viajei na cena. (risos) Mas, esses dias estava olhando de novo e vi um comentário de um sujeito que botou a coisa em perspectiva. Ele lembrou que não houve nada de “estilo”, ao contrário, Musashi chegou duas horas atrasado. Se isso já é ofensa em qualquer lugar do mundo, imagina no Japão. Aí, a hora que desceu do barco vinha com uma espada de madeira! Kojiro que já estava ofendido com o atraso, perdeu a cabeça, deve ter pensado: “Espera aí! Você chega duas horas atrasado para o duelo e ainda acha que vai me matar com um mera espada de madeira?!”. Problema de Kojiro que se sentiu ofendido e perdeu a noção das coisas! Musashi foi muito malandro. Usou isso contra o adversário.
A etiqueta, em princípio, é uma ponte que pode ser usada para aproximar um ser humano de outro, coração a coração. Mas, nem sempre isso é possível, então a etiqueta serve para nos proteger. Mas, a idéia principal seria mesmo a de servir como ponte. E, como no caso da arapuca, que serve para capturar passarinho, a gente tem que prestar atenção no pássaro, e, quando esse foi capturado, esquecer a armadilha.
É também, como diz uma estorinha que vi há muitos anos na revista Seleções do Reader’s Digest, semelhante aos porcos-espinhos que querem se aquecer no inverno. A etiqueta seria a distância adequada: se nos aproximamos demais, nos espetamos; se nos distanciamos demais, passamos frio.
Mas, repetindo, o objetivo da etiqueta é permitir o contato de ser humano para ser humano, coração a coração. O livro a Arte da Guerra começa listando as qualidades que o General deve ter: coragem, diligência... mas, a que ele enfatiza como a mais importante é a “Humanidade”.
Uma história de um famoso mestre do chá do Japão ilustra isso muito bem. Ele foi convidado por um senhor para tomar chá na residência deste. Então, foi com alguns alunos. Esses alunos eram muito avançados na arte de chá. Quando chegaram na casa desse senhor, os alunos ficaram inquietos porque o anfitrião estava fazendo tudo errado. E o professor deles lá, quieto, tranqüilo. Até que uma hora o aluno mais velho não agüentou e cochichou para o professor:
_ Sensei, eu nunca vi alguém realizar uma cerimônia tão tosca e grosseira como esse homem. Por que nós ainda continuamos aqui?
_ Entendo o que você diz, respondeu o mestre, ele está fazendo tudo errado, mas, eu vou continuar aqui porque nunca vi alguém realizar a cerimônia com um sentimento tão puro quanto o dele.
Bom, falando assim parece uma coisa muuuito elevada (risos)... Mas, vocês entenderam o que eu queria compartilhar. Muito obrigado pelo treino! |